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Perto de completar 50 anos, movimento que deu origem à ditadura militar é tema de série de livros
O historiador Marco Villa, autor do livro 'Ditadura à Brasileira
Não se trata de uma data para comemorar, mas ainda assim é uma das mais importantes na história do País e precisa ser lembrada. O golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil completa 50 anos em 2014, fato que deu início ao período de 21 anos, de 1964 a 1985, em que o País esteve sob controle das Forças Armadas Nacionais (Exército, Marinha e Aeronáutica). Desde o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, o Brasil vivia na iminência de um golpe pela pressão da oposição e instabilidade entre os militares. Eles, assim como os políticos, ameaçavam se rebelar e era como se pudessem tomar o poder a qualquer momento.
 
A situação se complicou quando Jânio Quadros renunciou, em 1961. O vice João Goulart, em viagem oficial a China, só retornou ao Brasil depois de aceitar governar em regime parlamentarista. Quando assumiu, adotou discurso considerado de esquerda e o medo de que Jango estabelecesse uma república sindicalista com o apoio do Partido Comunista Brasileiro acabou lançando a classe média contra o presidente. Época em que os militares entraram em ação novamente e retomaram as conspirações para que o presidente fosse deposto. O dia, então, chegou: 31 de março de 1964.
 
A subida dos militares ao poder mudou a história do País. O projeto descambou para a repressão de toda uma nação. A Constituição deixou de valer, o judiciário perdeu sua independência, os membros do legislativo foram depostos de seus cargos como representantes legítimos do povo. Os inúmeros acontecimentos que ocorreram até 1985 definem até hoje o País e ainda provocam muito debate, já que os questionamentos sobre o nebuloso período jamais deixaram de existir.
O principal, talvez, é se a sociedade, predominantemente, resistiu ou apoiou a ditadura. Uma discussão que ganha mais força, ainda mais nesse aniversário de cinco décadas.
 
Para lembrar o golpe, as editoras prepararam diversos lançamentos e relançamentos sobre o tema, promovendo, assim, um novo — e importante — debate. Desde obras explicativas até livros que rebatem a ditadura de 21 anos, o leitor tem à disposição um recheado leque que promete suprir o cada vez mais forte descaso com o passado, algo tão impregnado na cultura contemporânea brasileira.

Pano para manga

Entre os mais polêmicos está 'Ditadura à Brasileira' (LeYa, 432 págs., R$ 49,90), de Marco Antonio Villa. O historiador, autor de mais de dez livros tão polêmicos quanto este, sobre assuntos como o Partido dos Trabalhadores (PT) e o mensalão, afirma que o Brasil viveu 11 anos de ditadura, e não 21. Para ele, de 1968 a 1978, era ditadura e não há conversa. Porém, “não é possível chamar de ditadura o período de 1964 a 1968, com toda a movimentação político-cultural da época. Assim como de 1979 a 1985, com a aprovação da Lei da Anistia e as eleições para os governos estaduais em novembro de 1982. Que ditadura tem eleições diretas? Ou seja, não havia ditadura”, diz.
 
Villa começa a obra analisando justamente o governo de João Goulart que, segundo ele, “foi um completo desastre”. “Primeiro tem que enfrentar a questão de 1964 e depois o regime militar. Claro que havia vários golpes sendo preparados, porque vivíamos uma conjuntura marcada pelo golpismo”, afirma. O País, diz Villa, enfrentava um período de golpes desde a década de 20. “Foram inúmeros, que levaram a vários momentos de confrontos. Mas de 1964 a 1968, houve eleições diretas para 11 governos estaduais e Estados importantes foram vencidos pela oposição. Também teve eleições municipais, festivais de música. Houve uma efervescência cultural que não aconteceria em uma ditadura. Só que em um País onde não há debate político, qualquer mentira dita muitas vezes vira verdade. Mas muita coisa dita sobre esse período é uma enorme falácia. A história esconde os verdadeiros lutadores pela democracia.”

Contraponto

Marcos Napolitano, historiador da Universidade de São Paulo (USP), também chega às livrarias nesses 50 anos do golpe com a obra '1964 - A História do Regime Militar Brasileiro' (Contexto, 368 págs., R$ 49,90). Com o objetivo de sintetizar a história do período para permitir que o leitor entenda o que aconteceu por meio de fatos e documentos, ele concorda com Villa em apenas uma questão: “A gente pode considerar que nesses dez anos (1968-1978), a ditadura foi mais intensa, policial, abusou de censura e teve muito controle. Mas o regime sempre foi autoritário, os generais tinham o poder. Esse foi só o momento mais radical. O autoritarismo existiu do começo ao fim. O regime não deve ser caracterizado pelo número de mortos, mas pela forma de governo, pela forma de gerenciamento estatal.”
 
O pesquisador lembra, ainda, que a história não lida com verdade, mas com visões, sempre com base em documentos. A sociedade, diz, deveria ter a iniciativa de buscar informações com qualidade para entender e ter opinião sobre esse importante período. “Quando lemos comentários na internet, percebemos como as pessoas são desinformadas. A opinião é muito solta, sem base consistente. Existem várias análises, ótimos sites, inúmeros livros saindo sobre esses 50 anos. O que não dá para falar é que por falta de material é que não há conhecimento”, critica.
 
Na obra, Napolitano se debruça principalmente sobre questões sociais e culturais, englobando música, cinema e teatro, além de fazer uma análise sobre como o período vem sendo lembrado desde o seu fim, em 1985. “Mostro como a memória tem mudado e como é importante ter uma visão inovadora sobre a história”. A discussão está aberta.

 

Acesse a matéria original: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2014/03/entretenimento/158869-nas-paginas-da-historia-o-golpe-de-1964-na-literatura.html