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Os antigos diziam que a história é a mestra da vida. Se isso for verdade, cabe a pergunta: o que a sociedade brasileira aprendeu com a experiência de 1964? Ou seja, com o golpe de Estado e seus desdobramentos diretos que determinaram a vida do país por mais de 20 anos?

Aprendemos que os direitos humanos são valores fundamentais de qualquer sociedade que se quer moderna e civilizada? Aprendemos que a distribuição de renda é a palavra-chave que faz rimar economia com democracia? Aprendemos que a democracia é incompleta quando só se preocupa com os direitos individuais, sem fortalecer os direitos sociais e os direitos civis de todos, e não apenas de alguns? Aprendemos que a violência policial não é o melhor caminho para uma sociedade mais segura? Aprendemos que governos eleitos podem e devem ser cobrados e criticados, mas jamais devem ter sua legitimidade política questionada?

Bem, a julgar pelo que alguns colunistas escrevem em nossos jornais e revistas, ou pelo que se ouve e vê em alguns programas e jornais de rádio e TV, este aprendizado parece que não ocorreu como deveria.

Quando levamos em conta as opiniões que circulam no mundo virtual – blogs, redes sociais e comentários de leitores de jornais online –, ficamos com a impressão de que a sociedade brasileira atual vive um paradoxo: uma democracia institucional aparentemente consolidada convive com valores autoritários e ultraconservadores que cada vez mais saem do armário, extrapolam a conversa de rua e os trolls virtuais e se apossam paulatinamente de grandes e pequenas mídias, sempre termômetros dos valores dominantes em uma sociedade. Nem sempre essas opiniões conservadoras são qualificadas ou bem fundamentadas historicamente. Em muitos casos, trata-se de um amontoado confuso de preconceitos, rancores e fantasias que vê um país ameaçado por bandidos, políticos corruptos, esquerdistas e movimentos sociais subversivos. Por isso mesmo, podem fazer mais estragos do que uma fala conservadora bem fundamentada. Portanto, mais do que nunca, é preciso rememorar 1964.

Rememorar, note o leitor, não é a mesma coisa que “comemorar”. Este implica “lembrar junto” um evento ou personagem da história em sentido celebrativo, em que pesem possíveis debates sobre o papel desses eventos ou personagens para a história. Rememorar, neste caso, é propor uma lembrança reflexiva, crítica e autocrítica, assumindo diferenças radicais de perspectivas ideológicas que ainda esperam um fórum apropriado para se aplacar. Rememorar 1964 é perguntar-se como a defesa da democracia e das leis pode gerar seu contrário, a ditadura e o arbítrio. É perguntar-se como a defesa de Deus e da família pode gerar o demônio da repressão e a destruição desta mesma família, seja por causa dos desaparecidos políticos, seja por causa da violência social produzida pela modernização a qualquer preço. É perguntar-se como um país que parecia viver sua primavera cultural e democrática deixou-se arrastar para o inverno da ditadura.

É fácil dizer que 1964 foi obra de meia dúzia de generais carrancudos que transformaram a sociedade em refém dos seus valores. É mais difícil indagar sobre as diversas responsabilidades desta mesma sociedade, ou melhor, dos vários grupos que a compõem, em relação ao golpe e ao regime que se seguiu. Eis o maior desafio dessa rememoração.

Pessoalmente, não tenho muitas ilusões. A julgar pelos fantasmas autoritários que fazem barulho no sótão e nos porões, sempre tentando tomar toda a casa, parece que aprendemos pouco com a experiência de 1964.


A história não é mestra da vida. Muitas vezes, a vida que é a algoz da história, contando para isso com o esquecimento seletivo que nos permite cometer sempre e sempre os mesmos erros do passado. Ainda que em contextos muito diferentes.


MARCOS NAPOLITANO É PESQUISADOR, DOUTOR EM HISTÓRIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E ACABA DE LANÇAR O LIVRO 1964: HISTÓRIA DO REGIME MILITAR BRASILEIRO

Acesse a matéria original: http://www.revistadacultura.com.br/resultado/14-03-06/O_que_aprendemos_com_1964.aspx