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Em livro, sociólogo analisa a trajetória do PT até o poder

MAURICIO PULS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

 


Ernesto Rodrigues - 13.out.2105/Folhapress

 

"Do PT das lutas sociais ao PT do Poder" reúne artigos e entrevistas do sociólogo José de Souza Martins -professor titular aposentado da USP- sobre o Partido dos Trabalhadores e os governos Lula e Dilma. Como costuma ocorrer nessas coletâneas, é um livro bastante desigual.

O PT recebe diferentes definições: "O PT é apenas nominalmente um partido político. Na verdade, é constituído por um conjunto de facções partidárias e religiosas com orientação própria". Mais adiante: "O PT é um partido monolítico e em certo sentido autoritário. Ele não convive com o dissenso nem pode fazê-lo". Essas observações não compõem um todo coerente. Afinal, o PT é ou não é um partido? É monolítico ou fragmentado?

O diagnóstico sobre os tucanos também é problemático. Incluído a princípio entre as "cópias malfeitas de ideologias decorrentes de outras situações históricas", o PSDB depois é elogiado por ser "o único partido brasileiro que chegou a ter uma visão prospectiva da história... Compreendeu que a inovação social e política se determina pelo poder de reprodução da sociedade contemporânea". Mas, mesmo tendo compreendido tudo isso, "o PSDB não encontrou o caminho da inovação".

No ensaio de abertura do livro, Martins afirma que a eleição de Lula em 2002 marcou "o triunfo do subúrbio": "Não é o proletariado que se ergue politicamente, é o subúrbio, o lugar de chegada entre os que transitam entre o Brasil atrasado e o Brasil moderno".

O sociólogo ressalta que "somos um país messiânico e milenarista ainda hoje", e atribui o êxito político de Lula à atuação da Igreja Católica, que fomentou o aparecimento de lideranças operárias não comunistas: "Foi a Igreja, e não as esquerdas, que criou a figura poderosamente simbólica que, na pessoa de Lula, cumpre a promessa do advento do ungido".

Segundo ele, foi essa facção religiosa que "deu dimensão nacional ao PT" e lhe forneceu "a mística política de fundo religioso, o sistema conceitual que baliza os discursos do partido": o "didatismo maniqueísta" que divide o país em duas categorias. "Isso é bíblico, mas não é dialético." A estabilidade política que marcou seu governo resultou em grande parte da lealdade do vice José Alencar a Lula, fato que sempre esvaziou as tentativas de impeachment.

A importância conferida por Martins à natureza messiânica da população brasileira delimita suas análises eleitorais. Em 2006, ele assinala que vários bispos e políticos católicos tinham rompido com Lula: "Sem a ala católica, o PT terá dificuldades nas eleições deste ano".

Meses depois, chama a atenção para o avanço da candidatura presidencial de Heloísa Helena: "Ela é a encarnação de figuras míticas centrais da memória brasileira", como dom Sebastião e Antônio Conselheiro, e "poderá ser o Collor da esquerda das eleições de 2006". Sua ascensão "pode ser o indício do esvaziamento do carisma de Lula": "No caso de tornar-se a primeira mulher a presidir a República, resta saber quanto o socialismo bíblico da senadora será viável".

Reeleito Lula, em 2009 Martins se volta para Marina: "O fenômeno Marina Silva é o primeiro e poderoso indício de que o carisma de Lula tem sido silenciosamente abalado em seus fundamentos... As pesquisas indicam que a perda de seu carisma se desdobra também aí, na imaterialidade política da candidatura de Dilma Rousseff".

Depois da vitória de Dilma, Martins adota um tom mais cauteloso. Em 2014, ele escreve que "Marina Silva personifica, a seu modo, o que resta da eleição de Lula em 2002".

Em suas análises, Martins sempre enaltece as administrações do PSDB e é bastante crítico em relação às do PT. Classifica o Bolsa Família de "neoclientelista", mas elogia muito a entrega domiciliar "de medicamentos para os que dele necessitam", implantada pelo PSDB em São Paulo. Em 2009, atribui as altas taxas de aprovação do governo Lula ao seu "talento para ter um discurso pretensamente radical e uma prática indiscutivelmente conservadora".

Mesmo sustentando que Lula não produziu "nenhum feito espetacular, desde que chegou ao poder", Martins constata que houve algumas mudanças na sociedade: "Com o Bolsa Família, o governo Lula deu um golpe magistral na tradição iníqua e antidemocrática do voto de sujeição nos ermos e periferias do país". Reconhece ainda que "na última década e meia a classe média cresceu, até com as políticas do PT, a escolarização se difundiu", e defende os CEUS.

Ao comentar as manifestações de estudantes contra reorganização do ensino público em São Paulo, Martins sustenta que "estamos entrando numa nova era", dominada pela "figura do homem qualquer, o qualquer um, indiferençado, massificado e fragmentado"–um homem "indiferente à ideia de destino coletivo" e "empenhado em refazer a história a partir da zerificação do processo histórico".