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Linchamento expressa o empenho em 'restabelecer' a ordem, diz sociólogo

Fonte: Livraria da Folha

Nos últimos 12 meses, casos de linchamento, como o de Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá (SP), fizeram parte do noticiário. Apenas no primeiro semestre de 2014, foram mais de 50 ações de justiçamento de rua. " [Linchamentos] crescem numericamente quando aumenta a insegurança em relação à proteção que a sociedade deve receber do Estado", escreve José de Souza Martins em "Linchamentos: A Justiça Popular no Brasil".

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"Expressam o tumultuado empenho da sociedade em 'restabelecer' a ordem onde ela foi rompida por modalidades socialmente corrosivas de conduta social", conta.

Para Martins, os linchamentos são sinais de uma crise social. "Quanto mais se lincha, maior a violência; quanto mais incisivo o discurso em defesa dos direitos humanos, mais violados eles são".

"É que o intuito regenerador da ordem, que os linchamentos pretendem, fracassaram, tanto quanto a República fracassou no afã de modernizar e de ordenar, de instituir o equilíbrio de que toda sociedade carece na legítima aspiração de paz social e de garantia dos direitos da pessoa".

Os linchamentos também têm importância ritualística, como malhar o Judas no Sábado de Aleluia. Por isso, não é de se estranhar que algumas vezes o boneco traz características de pessoas públicas que atraíram o desgosto da população.

"Espetáculo ainda visível nos linchamentos de hoje, no açulamento de executores, como se fazia com o carrasco de antigamente, não só homens adultos coadjuvando os mais ativos na execução, mas também mulheres e crianças", diz. "Nos linchamentos, a presença de mulheres e de crianças, acolitando e até participando das execuções, aparentemente confirma o caráter ritual que os linchadores querem dar à punição".

Mestre, doutor e livre-docente em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), José de Souza Martins é professor titular aposentado de sociologia e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e recebeu o prêmio Jabuti de Ciências Humanas três vezes (1993, 1994 e 2009).