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Como nasceu, cresceu e morreu o sonho do ‘Brasil grande’, segundo jornalista.

 

Por João Paulo Charleaux para o Jornal Nexo

Em livro, mestre em relações internacionais Fábio Zanini refaz o caminho da expansão política e ideológica da Era Lula na direção da África e da América Latina

Uma das características mais marcantes dos oito anos de presidência de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) foi o desejo de estender a influência brasileira para a África e a América Latina. Treze anos depois — com uma Operação Lava Jato no meio — o sonho ruiu. No livro “Euforia e Fracasso do Brasil Grande: Política Externa e Multinacionais Brasileiras na Era Lula”, o jornalista Fábio Zanini refaz o caminho de uma estratégia cujas raízes estão nos anos 1970, mas os frutos começaram a aparecer em 2003, quando o PT chegou pela primeira vez ao poder. Zanini acompanhou o período de “euforia” como editor de notícias internacionais do jornal “Folha de S.Paulo” e o “fracasso” como editor de política no mesmo jornal. Mestre em relações internacionais pela Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, Zanini presenciou o desembarque das pretensões brasileiras em países como Angola, Moçambique, Guiné Equatorial e Peru. Um dia após o lançamento do livro em São Paulo, na terça-feira (7), Zanini respondeu por escrito a quatro perguntas feitas pelo Nexo sobre o papel das empreiteiras investigadas na Lava Jato em todo esse processo, e sobre o cruzamento entre interesses econômicos, agendas ideológicas e ambições políticas.


O que permitiu que as grandes empreiteiras brasileiras se internacionalizassem?
FÁBIO ZANINI - Na primeira década do século, uma conjunção de elementos inéditos permitiu a internacionalização de grandes empresas brasileiras. Tal processo, obviamente, não se inaugurou naquele momento. Como mostro no livro, a Odebrecht, por exemplo, traça sua internacionalização na década de 1970, em Angola. Mas pode-se dizer sem grande medo de errar que foi traçada uma política de Estado que tinha como pilar a maior presença de grandes empresas em outros países, sobretudo da África e da América Latina. Foi um movimento que dependia da política, alimentava-se dela e dava como retorno cobertura ideológica e financeira ao governo no poder. Estou falando sobretudo do governo Lula (2003-2010). Os elementos a que me refiro são diversos: expansão econômica brasileira, turbinada pelo ciclo positivo de commodities; diplomacia hiperativa, impulsionada por um presidente que fascinava o mundo por sua biografia e um chanceler com ambição de adotar uma política externa transformadora (Celso Amorim); empresas sedentas por explorar novos mercados; resgate do velho Terceiro Mundismo da tradição externa brasileira, agora repaginado com terminologia mais moderna, “relações Sul-Sul”.


Também se trata de uma projeção do poder político do Brasil no exterior, dentro do que se chamava de "subimperialismo" brasileiro?
FÁBIO ZANINI - Sem dúvida. Lula e Amorim souberam conjugar bem as duas grandes escolas das relações internacionais, o realismo e o liberalismo. Lula, um homem pragmático formado na escola do sindicalismo, definiu-se desde cedo em sua Presidência como um “mascate”, buscando abrir novos mercados para o Brasil. Mas essa retórica realista, focada em resultados práticos, vinha embalada num discurso de solidariedade dos povos e assistência para o desenvolvimento que alguém com sua trajetória de homem de esquerda vendia com facilidade. Havia o mal-disfarçado objetivo de, no Terceiro Mundo, tomar áreas antes “reservadas” a EUA, europeus e, mais recentemente, chineses. E, na relação com os países ricos (ou “Norte”), apresentar o Brasil como uma espécie de líder dos pobres. Numa analogia, Lula almejava ser uma espécie de líder sindical do mundo subdesenvolvido. Embora a imagem benevolente do Brasil tenha ajudado muito, ela passou a ser matizada com a realidade do que se seguiu. A sede de companhias brasileiras que participavam desse processo provocou reações, como era inevitável. No livro, cito diversos exemplos: da má impressão deixada por aventureiros do setor petroleiro na Namíbia às resistências que o agronegócio brasileiro causou no setor rural de Moçambique, ou a ira despertada por povos andinos com projetos hidroelétricos no Peru, mais tarde abandonados.

A expansão foi puramente comercial ou foi favorecida e impulsionada por algum elemento ideológico, dirigindo investimentos para países mais afinados com o governo de então?
FÁBIO ZANINI - O elemento ideológico ajudou muito. Lula desenvolveu uma relação muito próxima com diversos líderes, dentro de sua política de expandir a influência brasileira. Exemplos não faltam: José Eduardo dos Santos (Angola), Hugo Chávez (Venezuela), Mahmoud Ahmadinejad (Irã) e, claro, os irmãos Castro em Cuba, apenas para citar alguns. Todos governos de viés autoritário e com visão bastante próxima no que para o petista era essencial: a crítica ao imperialismo do mundo rico. Seus objetivos eram muitos: defender e levar consigo os interesses de empresas brasileiras (sobretudo, empreiteiras, mas não somente), projetar-se como líder global e consolidar o Brasil como referência para o mundo subdesenvolvido. O castelo começa a se desfazer quando o ciclo se inverte: a expansão brasileira se transforma em estagnação e depois depressão, e Lula é substituído por Dilma Rousseff, uma presidente sem interesse pessoal pelo tema. A Operação Lava Jato, simultaneamente, passa a desvelar o quid pro quo do esforço de internacionalização do governo em nome das grandes empresas: farto repasse de dinheiro na forma de consultorias para Lula, caixa dois para campanhas do PT e aliados e contratação de marqueteiros.

Há pontos de comparação entre o que os EUA fazem com seus interesses internacionais, cruzados com os interesses de empresas petrolíferas no Oriente Médio, por exemplo, e o que o Brasil fez com as empreiteiras na América Latina e na África?
FÁBIO ZANINI - Sim, vejo vários. Não apenas os EUA. A França, por exemplo, tem uma política agressiva de proteção a seus campeões nacionais na África. A China utiliza suas gigantescas estatais como braços de sua política externa. Uma interpretação de por que o ex-presidente Lula adotou sua política expansionista é que tenha tentado emular práticas de outras potências como uma forma de fazer do Brasil também um ator de respeito nesse sentido. No livro, explico que o Brasil a princípio se propõe a adotar uma vertente mais benigna desta forma de imperialismo, dando grande ênfase a projetos de cooperação técnica como parte do pacote. Mas no fim o impacto duradouro é mesmo das grandes corporações que tiveram no presidente seu porta estandarte e em linhas de financiamento, sobretudo do BNDES, os meios práticos de vender influência e viabilização de grandes projetos. As consequências para a imagem brasileira quando surgem os efeitos colaterais de degradação ambiental e trabalhista e, principalmente, da corrupção de agentes públicos, são grandes e duradouras. Está aí a repercussão global do esquema de pagamento de propina da Odebrecht como um caso exemplar.