Editora Contexto

Assunto
(0) items

Sociólogo José de Souza Martins aborda linchamentos em livro

Fonte: Meionorte.com

O Brasil está entre os países que mais lincham no mundo. Essas ações, motivadas por atos gravíssimos de estupro de crianças, por casos de incesto, por roubos que vitimam pessoas pobres e desvalidas, culminam no trucidamento violento dos acusados. O tema vem sendo pesquisando há cerca de 30 anos pelo professor de Sociologia da Universidade São paulo, José de Souza Martins, que está lançando o livro “Linchamentos – a Justiça Popular no Brasil”, pela editora Contexto.

Em entrevista ao Jornal Meio Norte, o escritor diz que a proposta dolivro é a que pode ter um cientista social. “Em face de um problema social grave, como esse, o cientista se propõe a investigar sua extensão, suas causas, suas características, suas consequências”, disse.

A pesquisa foi realizada na Universidade de São Paulo, com apoio da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Meio Norte - Em sua opinião, por que o Brasil está no ranking dos que mais lincham no mundo?

José de Souza Martins –Na verdade, não há nenhum ranking mundial de linchamentos. Apenas, comparando os dados sobre o Brasil com os dados de outros países em que tem ocorrido linchamentos, é possível observar que aqui o número de ocorrências registradas é maior do que as conhecidas em relação a outros países. Convém levar em conta que o Brasil é país muito maior do que outros em que essa forma de violência tem ocorrido, sua população é maior e, portanto, é maior a probabilidade de que os números sejam maiores.

MN - Qual a proposta de sua obra?

JSM –Sou sociólogo. A proposta do livro é a que pode ter um cientista social. Em face de um problema social grave, como esse, o cientista se propõe a investigar sua extensão, suas causas, suas características, suas consequências. Minha pesquisa científica, realizada na Universidade de São Paulo, com apoio da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,teve esse propósito.Cobre o Brasil inteiro e teve por objetivo desvendar os aspectos menos visíveis e menos óbvios dessas ocorrências, como o caráter ritual que os linchamentos tendem a assumir. É o que pode influir nas ocorrências, de modo a reduzir-lhes a frequência e o impacto.

MN – Qual a repercussão de “Linchamentos – a Justiça Popular no Brasil”?

JSM –O livro foi lançado há menos de uma semana. Ainda não há condições de avaliar uma eventual repercussão. Mas pelo número de solicitações de entrevistas que tenho recebido, aparentemente o livro atende a um interesse compreensivelmente amplo pelo problema.

MN - Qual período de tempo o senhor aborda?

JSM –A pesquisa cobre dados dos últimos 60 anos, segmentada em etapas, com maior ênfase nos anos 1990 e nos últimos 15 anos.

MN - O senhor pode citar exemplos de linchamentos que estão no livro?

JSM – Os exemplos poderiam sugerir um padrão de linchamento, o que distorceria a realidade dos fatos. Os linchamentos aqui ocorridos são agrupados, no livro, em quatro categorias de motivos: fútil (menor incidência), violência contra a pessoa, violência contra a pessoa e seus bens, violência contra os bens de uma pessoa. A violência contra a pessoa agrupa o maior número de casos. Além disso, há o que estou chamando de “protocolo” do linchamento. A pesquisa revelou que há uma sequência de atos e momentos do ato de linchar que vão da perseguição, ao apedrejamento, ao espancamento, à agressão física direta, à mutilação, até o limite da queima da vítima ainda viva. O “protocolo” completo é de incidência menor. Mas mostra que, se o linchamento não for contido no início, desenvolve-se num crescendo que vai da indignação à raiva e da raiva ao ódio, o que torna o seu controle cada vez mais difícil.

MN - O que levou o senhor a escrever sobre o assunto?

JSM –Nos anos 1970, eu estava fazendo uma pesquisa sobre tensões sociais e movimentos sociais no interior do Brasil. Paralelamente fazia uma pesquisa de controle sobre outras formas de comportamento coletivo. Nela surgiram surtos de saques, motivados por carência e fome. E também indícios de uma permanente prática do justiçamento popular. Transformei o banco de dados da pesquisa paralela em banco de dados de uma pesquisa ampla e específica, o que me permitiu documentar, analisar e compreender a lógica própria dos linchamentos.

MN - Linchamentos estão relacionados com a falta de segurança, lentidão da justiça, a impunidade ou pesa mais a revolta do momento?

JSM –São vários os fatores que concorrem para que um linchamento aconteça. No geral, a indignação súbita por ato violento que alcance pessoa frágil, inocente ou indefesa. Mas a predisposição para linchar vem de uma consciência social e do senso comum de que as instituições não funcionam, a polícia demora e a justiça é lenta e complacente. Na verdade, a população tem dificuldade para compreender os ritos próprios da Justiça formal, que não só faz justiça a uma vítima, mas evita injustiça contra um suposto agressor. Acusados devem ser investigados e julgados de acordo com a lei por um tribunal neutro e isso demora.

MN - Em qualquer país, os linchamentos são sempre violentos. O que difere de um país para outro?

JSM –A cultura do país (ou, no interior de um país, a cultura local) influencia significativamente no elenco de motivos que levam a um linchamento e à forma que o linchamento assume. No Brasil, os linchamentos podem ser agrupados em quatro grandes motivos: crime fútil, crime contra a pessoa, crime contra a pessoa e a propriedade, crime contra a propriedade. Em Moçambique, os linchamentos mais frequentes são motivados por suspeita de feitiçaria. Nos Estados Unidos, entre a segunda metade do século XIX e os anos 1930, o preconceito racial foi o maior motivador de linchamentos.

MN - No caso de linchamento, qual a probabilidade da população matar inocentes ou pessoas sem provas?

JSM –Tem ocorrido no Brasil linchamentos de pessoas comprovadamente inocentes, como o da mãe de família no Guarujá, em São Paulo, ocorrido no ano passado, acusada de ser a sequestradora de crianças cujo retrato falado fora difundido pela internet. Como mostro no livro, na pesquisa que realizei, 7.8% das vítimas de linchamentos eram inocentes. É uma proporção muito alta.

MN - Como as autoridades podem combater o linchamento?

JSM –Cabe à Polícia, se alertada, intervir na ação da multidão linchadora. Isso tem acontecido. Em mais de 90% dos casos de interrupção de um linchamento e salvamento e prisão de um acusado, a polícia é a responsável, especialmente a Polícia Militar.

MN - Até que ponto os governos têm culpa com esse crescimento do número de linchamentos?

JSMEsse é um tipo de violência em que não cabe procurar culpados pela forma que assume, a da violência coletiva da multidão. A crise moral da política e do Estado certamente responde pela predisposição da população pelo justiçamento de criminosos, mas não se pode falar em governo como responsável, a menos que as autoridades se omitam quanto ao dever de interferir, por meio da Polícia, em casos concretos.