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EM O FUTEBOL EXPLICA O BRASIL, MARCOS GUTERMAN, HISTORIADOR E EDITOR DE PRIMEIRA PÁGINA DO ESTADO, TRAÇA UM ARCO QUE VAI DA CHEGADA DO "ESPORTE BRETÃO" AO PAÍS, NO FIM DO SÉCULO 19, ATÉ A CONQUISTA DO PENTACAMPEONATO EM 2002. UM LONGO PERCURSO, DE MAIS DE 100 ANOS, NO QUAL ESSA ESTRANHA ATIVIDADE LÚDICA, IMPORTADA POR CHARLES MILLER, UM FILHO DE ESCOCÊS COM BRASILEIRA, COMEÇOU COMO ESPORTE DE ELITE, POPULARIZOU-SE A PONTO DE PARECER NASCIDO AQUI E TORNOU-SE GRANDE DEPOSITÁRIO DE ASPIRAÇÕES REAIS E SIMBÓLICAS DOS BRASILEIROS.

O LIVRO TRATA ASSUNTO TÃO VASTO COM UMA PERIODIZAÇÃO SIMPLES. NARRA A CHEGADA DAS PRIMEIRAS BOLAS E JOGOS DE CAMISAS COM MILLER ATÉ A CRIAÇÃO DOS PRIMEIROS CLUBES, A MAIOR PARTE DELES PRIVATIVOS DA ELITE BRANCA DO PAÍS. A PARTIR DAÍ, O LIVRO PROGRIDE POR DÉCADAS, ACOMPANHANDO A PRÁTICA DO JOGO DA BOLA ENTRE NÓS E REVELANDO O ENTRELAÇAMENTO ENTRE SEU DESENVOLVIMENTO E A HISTÓRIA NACIONAL.

NA VERDADE, NÃO SE TRATA DE FATOS ISOLADOS, O FUTEBOL DE UM LADO, A HISTÓRIA (COM AGÁ MAIÚSCULO) DE OUTRO. AMBOS ESTÃO LIGADOS E SERIA ARTIFICIAL DISTINGUI-LOS. SENDO COMO A FRENTE E O VERSO, O PRÓPRIO FUTEBOL FAZ PARTE DA HISTÓRIA BRASILEIRA E TANTO A REFLETE COMO A INFLUENCIA. SACAR ESSE IR E VIR, OBSERVAR ESSAS LINHAS QUE SE MISTURAM, SEM RELAÇÃO MECÂNICA DE CAUSA E EFEITO, MAS PARTICIPANDO, AMBAS, DO MESMO CLIMA HISTÓRICO, É O DESAFIO PARA O PESQUISADOR QUE PRETENDA EXAMINAR "A MAIOR EXPRESSÃO POPULAR DO PAÍS", COMO DIZ O SUBTÍTULO DO LIVRO.

É FASCINANTE, POR EXEMPLO, ACOMPANHAR COMO O FUTEBOL AGLUTINA AS EXPECTATIVAS DOS BRASILEIROS DE QUE O PAÍS SE TORNE ENFIM UMA POTÊNCIA, COMO SUA DIMENSÃO GEOGRÁFICA SUGERE. ESSE DESEJO DE GRANDEZA PODE EXISTIR DE FORMA LATENTE NAS PESSOAS E SE PROJETAR EM UMA EQUIPE DE FUTEBOL, EM PARTICULAR O SELECIONADO NACIONAL, QUE SE TORNA, ENTÃO, UM PONTO PRIVILEGIADO PARA ANÁLISE DO HISTORIADOR, UMA VEZ QUE RESUME O "SER NACIONAL". "É O QUE ACONTECE EM ESPECIAL A PARTIR DA COPA DE 1938, NA FRANÇA", DIZ GUTERMAN, QUE NÃO HESITA EM CLASSIFICÁ-LA COMO A MAIS IMPORTANTE DAS COPAS DO MUNDO, PELO MENOS PARA OS BRASILEIROS E NESSE ASPECTO DA AFIRMAÇÃO NACIONAL.

ERA UMA ÉPOCA DE GRANDES PAIXÕES, PRÉ-GUERRA, E OS POLÍTICOS HÁ MUITO HAVIAM PERCEBIDO O FUTEBOL COMO CAPAZ DE CATALISAR AS PAIXÕES DE UM POVO E, EVENTUALMENTE, DIRIGI-LO PARA ONDE SE DESEJA. MUSSOLINI HAVIA COMPREENDIDO ISSO NA ITÁLIA (VINCERE O MORIRE, VENCER OU MORRER, ERA O LEMA PARA A SQUADRA AZZURRA EM 1934). VARGAS, NO BRASIL, NÃO FICAVA ATRÁS E ENTENDIA MUITO BEM O POTENCIAL SIMBÓLICO DO JOGO DA BOLA. "ISSO APESAR DE PREFERIR O GOLFE", LEMBRA GUTERMAN. NÃO POR ACASO, PASSOU A FAZER SEUS DISCURSOS NO ESTÁDIO DO VASCO, EM SÃO JANUÁRIO, "E NÃO APENAS PORQUE O LUGAR ERA GRANDE E COMPORTAVA MULTIDÕES, MAS PORQUE ESTAVA SIMBOLICAMENTE MARCADO PELO FUTEBOL".

NA COPA DO MUNDO DE 1938, O BRASIL PERCEBEU, OU JULGOU PERCEBER, QUE JOGAVA UM FUTEBOL DIFERENTE DOS OUTROS. E QUE ESSE ESTILO PODERIA SER MELHOR E MAIS EFICIENTE QUE O DOS OUTROS. A SELEÇÃO QUE FOI BEM NA COPA, INCLUIU NEGROS E BRANCOS, E REVELOU À EUROPA O GÊNIO DE LEÔNIDAS DA SILVA. PERDEU PARA A FAVORITA ITÁLIA POR CAUSA DE UM PÊNALTI COMETIDO POR DOMINGOS DA GUIA NO ATACANTE PIOLA, LANCE DISCUTIDO ANOS A FIO PELA TORCIDA.

DEPOIS DESSA BEM-SUCEDIDA PARTICIPAÇÃO INTERNACIONAL, O BRASIL COMEÇOU A SE PREPARAR PARA SEDIAR A PRIMEIRA COPA DO MUNDO, O QUE ACONTECERIA APENAS EM 1950. ANO QUE ENTRARIA PARA A HISTÓRIA COM A DERROTA NA FINAL PARA O URUGUAI, POR 2 A 1, O FAMOSO "MARACANAZO". O BRASIL, QUE SE PREPARAVA PARA SER O "MELHOR DO MUNDO" (EM TUDO, E NÃO APENAS NO FUTEBOL), ACORDOU NUMA RESSACA BRUTAL, SENTINDO-SE O PIOR DOS POVOS DA HUMANIDADE. UM POVO COM "COMPLEXO DE VIRA-LATAS", NA IMORTAL EXPRESSÃO DE NELSON RODRIGUES. UM POVO QUE NÃO SABIA PARA ONDE IR E EXPRESSOU ESSA INDEFINIÇÃO NA DESASTROSA PARTICIPAÇÃO NA COPA DA SUÉCIA EM 1954, ELIMINADO PELA FAVORITA HUNGRIA, NUM JOGO Q