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Ser correspondente prepara o jornalista para escrever
sobre tudo, diz Ariel Palacios

Nathália Carvalho

 

Ariel Palacios trabalha como correspondente desde 1995 (Imagem: Reprodução)

Foi ao escrever livro sobre a Argentina que o jornalista Ariel Palacios percebeu como a profissão ajudou na elaboração da obra. Correspondente internacional do Estadão e da Globonews em Buenos Aires, o profissional garante que a posição o preparou para escrever sobre tudo. "O jornalismo me ajudou na escolha dos assuntos e na forma de explicar as coisas de maneira didática, sem academicismos. Mais ainda pelo fato de ser correspondente, já que a gente tem que estar preparado para escrever de tudo", diz.

Ao Comunique-se, Palacios conta com detalhes como foi produzir o livro lançado na última semana pela Editora Contexto e adiantou o que o leitor pode encontrar em Os Argentinos, obra dividida em 14 capítulos e resultado do projeto que vem desde a década de 1990. As particularidades da Argentina e a relação com o Brasil também fazem parte da conversa.



Veja a íntegra da entrevista com o jornalista:


Como surgiu a ideia de fazer o livro?


Surgiu pouco depois que coloquei os pés na Argentina, em 1995. Era um país complexo e pouco compreendido no Brasil. Ou pior: analisado por intermédio de clichês. Era necessário explicar bem as peculiaridades do país e deixar claro que não dava para entender a Argentina por meio de comparações diretas com o Brasil. Por exemplo, o Peronismo não é como o Varguismo. Os amigos no Brasil me perguntam: “Porque o governo não faz um consenso com a oposição?”. Explico que, ao contrário do Brasil, país no qual o consenso é a marca da política há 200 anos, com seus prós e seus contras, na Argentina predomina o antagonismo político. Aquilo que às vezes parece lógico no Brasil não necessariamente é aplicável na Argentina. 

 

Qual a importância de falar sobre esse assunto?


É importante entender a Argentina porque é o principal de nossos vizinhos. E mais ainda, porque é um país que geralmente pega os estrangeiros de surpresa. Mas minha ideia de tentar fazer um “manual” sobre um país vinha de antes, pois desde a adolescência era fascinado pelo Inside Europe, livro do correspondente americano John Gunther, que em 1939 dissecava os países europeus em um livro extenso. E o caso de Alan Riding, que escreveu o clássico The distant neighbour, sobre o México. E também o caso de Luigi Barzini, que nos anos 50 escreveu Os Italianos. São “manuais” muito detalhados e escritos por correspondentes que tentam penetrar na alma do país.

 

Como foi o trabalho e elaboração do livro?

 
Percebi que a preparação de um livro seria um processo muito lento, já que o país é extremamente complexo. Não era possível chegar em Buenos Aires e escrever um “Argentina em 10 passos”. Não era isso o que eu queria. E seria uma falta de respeito com o leitor. Comecei a ler muito sobre o país, além de mergulhar na política e economia cotidiana pela própria profissão de correspondente. Com o passar dos anos, fui juntando livros, além de montar um enorme arquivo sobre a Argentina. Na crise de 2001-2002, a pior da história do país, disse para mim: “bom, é hora de começar”. Comecei, mas de forma muito irregular. A profissão de correspondente não permite tempo livre de sobra. Portanto, escrevia durante as férias. E assim passou quase uma década, quando em 2009 decidi que era necessário escrever de uma vez por todas. Na ocasião, comecei a procurar algumas editoras. Uma não se interessou e outra queria que eu fizesse algo paródico, um “How to be a portenho”. Era uma chance de publicar um livro, mas não era de jeito algum o livro que eu queria. Aliás, era uma proposta aberrante. Por isso, recusei o convite. 

 

Como a obra chegou à Editora Contexto?

 
Ligaram-me da Editora Contexto perguntando se não estaria interessado em fazer um livro, algo sério. Eu disse: “estou preparando um livro assim há tempos!”. Então definimos os detalhes e entrei na reta final, que levou o ano inteiro. Acabei escrevendo três vezes mais do que era necessário, quase 1,8 milhão de caracteres. A Argentina rende muito e o trabalho foi sintetizar o livro. Decidir o que fica de fora e o que entra é terrível, mas é o tipo de cirurgia que é imprescindível realizar. 

 

Como você escolheu os assuntos tratados no livro?

 
Pensei nos assuntos cruciais para tentar entender um país, como história, economia, política e cultura. Acrescentei idioma, sociedade, esportes e, depois, pensei: “Preciso colocar algo de sexo e gastronomia”. E fui acrescentando outras partes, talvez não convencionais, mas que eram importantes para tentar entender a Argentina. É um país muito não-convencional. Portanto, era necessário recorrer a tópicos heterodoxos.

 

O que o leitor deve esperar da obra?

 
O leitor deve esperar uma obra aberta, sem clichês. Quem quiser encontrar no livro uma explicação categórica e definitiva sobre a forma de ser dos argentinos, não deve nem virar a primeira página. A política e a economia da Argentina são cheias de nuances. Nada é vinho ou água. Nem preto ou branco. Os cinzas abundam. Um dos pontos fortes é a parte política, explicando a caótica institucionalidade de um país que desde 1930 só teve quatro presidentes que conseguiram completar o mandato. Mas também as partes sobre os costumes dos argentinos, e sua peculiar gíria. 

 

Como o jornalismo te ajudou na produção? 

 
O jornalismo me ajudou na escolha dos assuntos e na forma de explicar as coisas de forma didática, sem academicismos. Para isto, o jornalismo é um exercício preparatório formidável. Mais ainda pelo fato de ser correspondente, já que a gente tem que estar preparado para escrever de tudo.

 

O que mais te marcou ao fazer o livro? 

 
A coisa mais marcante foi a própria escritura. Entendi quando os grandes escritores profissionais decidem ir para uma cabana no meio das montanhas de Idaho ou para uma ilha ou uma fazenda para terminar de escrever um livro. É muito difícil escrever enquanto o cotidiano te atropela.