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Exclusivo Best Swimming: Capítulo “Caminho para o Rio” do livro Poliana Okimoto

Por Alex Pussieldi para Best Swimming
 
 

O lançamento do livro “Poliana Okimoto” de Daniel Takata e Hélio de La Peña será no próximo sábado em São Paulo. Antes disso, a Best Swimming traz com exclusividade um capítulo dos mais importantes da obra: “Caminho para o Rio”.

CAMINHO PARA O RIO

Naquele dia, Ricardo Cintra foi dormir na sala. Pegou seu travesseiro e deixou Poliana sozinha no quarto.

Vida de esposa e marido tem seus momentos difíceis. Imagine quando a relação também é de atleta e treinador, como é o caso do casal. As brigas e desentendimentos devem acontecer em maior frequência. Afinal, existem mais motivos para tal. A convivência é de 24 horas por dia, sem interrupções.

Não é bem por aí. Apesar de viverem em função do trabalho, jamais brigaram feio. Discussões normais somente. Algumas mais ásperas, mas somente no treinamento, momento em que os sangues estão quentes. Logo conversam, resolvem o assunto e dormem tranquilos.

Se a relação é tão pacífica, por que Ricardo naquele dia deixou Poliana sozinha no quarto?

Nenhuma briga foi o motivo. Muito pelo contrário. A dedicação à relação é tamanha que, quando sente algum sintoma de gripe ou de alguma doença, vai dormir na sala. Tudo para preservar a saúde e o descanso da esposa.

A devoção ao trabalho e ao relacionamento é notada em atitudes como essa no dia a dia. E, entrando em ano de Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, não mediriam esforços para alcançar o objetivo.

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Festa, presentes, muita comida, música, descontração… Para muita gente, esse é o roteiro do dia 24 de dezembro todos os anos, na preparação para a ceia de Natal.

Para Poliana Okimoto, é diferente. Diferente do resto do mundo, e igual aos outros dias do ano. No máximo, uma comida gostosa na ceia. Adentrar a madrugada abrindo presentes, nem pensar. Dia 25 de dezembro também é dia de treino.

Se é assim todos os anos, imagine no Natal de 2015, em plena preparação para os Jogos Olímpicos. Ainda mais em fase de base aeróbica, de grandes metragens. Naquele dia 24, fez dois dos treinos inesquecíveis de sua vida.

Sua programação do dia incluía nadar em dois períodos. Mas esperava séries leves, afinal era véspera de Natal. Na sessão da manhã, Ricardo Cintra passou a série: 100 de 100 m, totalizando 10 km. Ficou surpresa com o volume e a intensidade. À tarde, com a certeza de que teria um treino tranquilo, mais 100 de 100 m. Poliana recorda que talvez foram as sessões mais difíceis de sua vida, principalmente por ter sido pega de surpresa. Mais até que uma série de 200 de 100 m realizada em 2013, antes do Mundial de Barcelona – como vimos no capítulo “Voltando à vida”.

Treinos que mexem com o aspecto mental são essenciais na preparação de um atleta de alto nível. Afinal, em uma grande competição internacional, todos estão bem preparados, e muitas vezes o que faz a diferença na hora de conquistar uma medalha é a capacidade de o nadador se superar em uma situação de pressão e estresse. A disposição de Poliana fez com que encarasse e superasse sempre tais desafios. Não é qualquer nadadora que se sagra vice-campeã mundial nadando uma prova de 10 km com o tímpano perfurado, como ocorreu em 2006, ou que conquista a medalha de prata em outro Mundial dois dias após uma infecção estomacal e ter sua participação colocada em dúvida, como foi em 2013. Até a Olimpíada do Rio de Janeiro, ela precisaria encarar muitos treinos exaustivos para condicionar o físico e, sobretudo, a cabeça.

Alguns dizem que é dom. Mas poucos sabem dos 100 de 100 m de manhã e 100 de 100 m de tarde em plena véspera de Natal. No final, cada gota de suor vale.

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Entrando no ano olímpico de 2016, a concentração era total. Até os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em agosto, Poliana ficaria dez meses sem disputar competições em piscina – jamais ficara tanto tempo ausente desse tipo de torneio – para se dedicar exclusivamente a provas em águas abertas.

O último campeonato que nadou em piscina antes da Olimpíada foram os Jogos Mundiais Militares, em outubro de 2015, em Mungyeong, na Coreia do Sul. Mas por que ela teria disputado tal competição?

Em 2010, a nadadora havia aderido ao Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas, financiado pelo Ministério da Defesa. Dessa forma, passou por um processo seletivo, ingressou na carreira militar, submeteu-se a um treinamento rigoroso e foi incorporada às Forças Armadas como sargento. O programa adquiriu grande importância em sua carreira, por oferecer apoio a treinamentos e assistência médica, odontológica, fisioterapêutica, entre outros, além de salário. Desde então, passa por reciclagens anuais nas quais aprendeu técnicas de tiro, como sobreviver na selva e fazer descida de rapel. Ela enfatiza hoje que carregará para sempre as lições aprendidas.

E para representar o Exército Brasileiro, foi para a Coreia do Sul participar daquela competição. Por não estarem programadas provas de águas abertas, nadou somente os 400 m e 800 m livre em piscina. Mesmo contra rivais mais bem preparadas para esses tipos de disputas, saiu com uma medalha de bronze na prova mais longa. A Sargento Poliana Okimoto entrara como franco-atiradora. E, a partir daquele momento, se dedicaria somente à maratona aquática para chegar à Olimpíada, dez meses depois, no pelotão de elite. E com artilharia pesada.

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No início do ano olímpico, Poliana e Ricardo aos poucos foram alterando aspectos da rotina em busca de melhorias. Ao perceber que a alimentação não estava mais dando conta de fornecer toda energia necessária para os treinamentos, decidiram buscar o auxílio da nutricionista Yana Glaser. A consequência foi mais disposição e melhoria de desempenho nos treinos.

A primeira competição de 2016 foi a estreia da Copa do Mundo em Viedma, na Argentina. Apesar de ter chegado na segunda colocação, Poliana não gostou da maneira como nadou. Não se sentiu bem na água. Nessa época, tinha muitas dúvidas sobre se chegaria competitiva aos Jogos Olímpicos. Foi quando Ricardo decidiu alterar toda a rotina de treinamentos. Um passo arriscado a seis meses da Olimpíada. Mas necessário, pois, sem confiança, não haveria chances. “Não se faz nada sem forças, e essas forças é preciso conquistá-las à força” (Fiódor Dostoievski).

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Era tudo ou nada. Nos meses seguintes, abririam mão de suas vidas pessoais em prol da preparação. A rotina era rígida: às 7h30 da manhã, estavam na piscina do Esperia. Às 21h30, já se preparavam para dormir. Todas as horas do dia eram voltadas aos treinos dentro e fora d’água, à fisioterapia, à alimentação, ao descanso – ou seja, cabeça e corpo voltados inteiramente para a prova olímpica de 10 km em agosto. E em um trabalho mais duro do que nunca.

Os treinos de Poliana sempre foram baseados em longas metragens, desde criança. No entanto, beirando os 33 anos, não treinava tanto quanto fazia aos 20 anos, quando chegava a 100 km por semana. Pois foi o que Ricardo propôs: aumentar os treinamentos, chegando novamente a uma centena de quilômetros semanais. Ele sentia que, com o novo trabalho de nutrição, a nadadora teria capacidade para suportar as pesadas cargas. No início ela desconfiou, pois acreditava que, com sua idade, seu corpo havia mudado e não seria capaz, e nem seria necessário, metragens tão longas. Mas aceitou.

Também acertaram mudar a preparação física no início de 2016. Passou a ser orientada por Eduardo Candiota, do Sesi de São Paulo, que também era responsável pela preparação de, entre outras, Etiene Medeiros, principal nadadora brasileira nas piscinas. Também tinha experiência com atletas de maratona aquática: havia trabalhado com Ana Marcela Cunha e cuidava da preparação de Diogo Vilarinho, medalhista de prata na prova por equipes no Mundial de 2015.

O principal foco da preparação foi não só ganhar resistência e força, mas coordenar os movimentos e aprender a trabalhar com o corpo. Não adiantava levantar 100 kg na musculação se não conseguisse transferir a força para a água – afinal, a natação baseia-se em deslocar o corpo de um ponto a outro usando a força dos membros. O objetivo, portanto, era utilizar essa força de maneira eficiente e econômica. Para isso, trabalhos variados foram utilizados: musculação sem aparelho, atividades de ginástica natural, de solo e suspensa (como barras e argolas) e educativos coordenativos de corrida.

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Em um período curto, as alterações surtiram resultado. Menos de um mês depois do início do novo trabalho de preparação física, na segunda etapa da Copa do Mundo, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, Poliana chegou na segunda posição, mas sentiu-se poderosa nadando. Na volta aos treinos, fez séries inacreditáveis, de acordo com suas próprias palavras. Como treinava com qualidade mesmo com volumes altíssimos, começou a recobrar a confiança e acreditar novamente em si. Nunca nadou tantos metros e tão rápido. Para se ter uma ideia, na época detinha o recorde brasileiro dos 800 m livre em piscina de 25 metros desde 2010, com 8min27s77. Nos treinamentos, por algumas vezes nadou na casa dos 8min27s, um tempo que só havia conseguido fazer em competição, nas melhores condições. Nos 200 m livre, chegou a nadar no treino para 1min59s, sendo que seu melhor tempo em competição era 2min01s. Podia ter feito excelentes marcas no Troféu Maria Lenk, competição que definiria a seleção brasileira para as provas de piscina para os Jogos do Rio de Janeiro. Mas preferiu abrir mão do torneio e não se expor, para dar continuidade de maneira adequada aos treinamentos visando à Olimpíada.

Nessa época, Poliana enfrentou 21 semanas do período que se chama de base aeróbica, em que se nadam grandes volumes, para que se consiga resistência para o período seguinte, de trabalho específico, estratégias de provas e outros ajustes. Jamais treinara assim, tanto em volume quanto em qualidade. De segunda a sábado, treinava um total de quase 100 km. Nas últimas duas das 21 semanas, carinhosamente chamadas de “semanas do inferno”, eram 10 km de manhã e 10 km de tarde, todos os dias. Mais de 100 km semanais. Aos 33 anos, estava melhor do que aos 15, aos 20, aos 25. A cada treino difícil, ganhava mais confiança.

Um treino em particular desse período pré-olímpico ficou marcado para Ricardo. Poliana já havia nadado mais de 5 mil metros, quando teria que cumprir três séries de 15 de 100 m, em grande intensidade, com intervalo curto – 1min15s para nadar e descansar a cada 100 m. Ao final da segunda série, Ricardo notou que a nadadora chorava. Estava exaurida. Perguntou se queria que o intervalo fosse aumentado ou a série diminuída, e recebeu de volta um palavrão. Desistir jamais esteve no vocabulário. Preocupado, o treinador pediu ao salva-vidas do Esperia que redobrasse a atenção e ficasse de olho na nadadora. A tensão e o esforço eram tais que ele temia que Poliana desmaiasse em pleno treinamento. O episódio ilustra a mentalidade da atleta, principalmente às vésperas dos Jogos Olímpicos.

Alexander Rehder, seu fisioterapeuta, estava presente em outro treino em que ela chorou. “Todo atleta tem dias bons e dias ruins. E aquele era um dia ruim para ela. Realmente não estava bem”, lembra. A nadadora fazia uma série de 8 tiros de 100 m, com tempo de descanso de cerca de dois minutos entre cada tiro. E tinha que nadar todos para 100% de sua capacidade. Faltando dois tiros, Poliana chorava. Ricardo sugeriu encerrar a série. Ela respondeu: “Não. Vou fazer um tiro de 200 m.” Fez o tempo de 2min01s, muito próximo de sua melhor marca pessoal na distância em piscina de 25 m. “E terminou o treino chorando de dor, quase precisando ser carregada”, impressiona-se Alexander. “Não conheço outro atleta que faria isso. Na minha época de nadador, estive em equipes com de grandes nomes, medalhistas olímpicos e pan-americanos, que treinavam muito forte. Mas igual a Poliana eu nunca vi.”

Para nadar bem a Olimpíada do Rio, ela realmente não media esforços. Trocou preparador físico e nutricionista no ano olímpico, um movimento arriscado, mas que se mostrou necessário, como será detalhado no capítulo “Caminho para o Rio”. Ao contrário de 2008 e 2012, não se sentia na obrigação de ganhar medalha, mas sim de dar seu melhor. Outras nadadoras poderiam até chegar à frente, mas teriam que suar muito. Mergulhando de cabeça nos treinos como fez, as chances de um grande resultado aumentavam sobremaneira. E ainda tem gente que fala de sorte. Quanto mais ela trabalha, mais sorte parece ter.