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CRÍTICA HISTÓRIA

Conquistador tem legado relativizado

Pesquisador contesta leitura de esquerda do espanhol Hernán Cortez como líder militar cruel

OSCAR PILAGALLO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Marcos Vinícius de Morais não chega a tentar inverter a imagem negativa de Hernán Cortez (1485-1547), espanhol que derrubou o Império Asteca e conquistou o México no século 16, deixando atrás de si um rastro de sangue.
Em "Hernán Cortez: Civilizador ou Genocida?", no entanto, o historiador lhe concede o benefício da ambiguidade expressa no título do livro. Se Cortez é o assassino do passado indígena, é também o pai da nação mexicana mestiça.
Ao defender a tese, Morais critica a visão maniqueísta de autores de esquerda, que tendem a idealizar o passado de uma civilização maravilhosa destruído cruelmente pelo poder militar e econômico de uma das potências da época.
Embora evite a citação nominal, Morais deixa claro que suas baterias estão voltadas para Eduardo Galeano, autor do popular "As Veias Abertas da América Latina".
A interpretação de Morais deriva do peso que atribui aos fatores que levaram à derrota de Montezuma, o líder dos astecas. O autor não desconsidera a superioridade tecnológica dos espanhóis, a assimetria de informação, favorável aos conquistadores, e o efeito arrasador da varíola para os indígenas.
Acredita, porém, que mais importante foi a exploração, por parte de Cortez, das divisões do Império Asteca. Montezuma era odiado por outros chefes locais, e foram sobretudo eles que, com os espanhóis, levaram suas tribos à guerra contra os astecas.

TRAIÇÃO E INTRIGA
Não é uma tese nova. O próprio Galeano se refere a essa estratégia, embora a chame de traição e intriga. Em "Armas, Germes e Aço", Jared Diamond também reconhece a importância das alianças, mas relativiza o gênio de Cortez ao lembrar que tais adesões não teriam ocorrido se os indígenas "já não tivessem sido convencidos, pelas devastadoras vitórias anteriores dos espanhóis, de que qualquer resistência seria inútil".
A tarefa de Morais, de desfazer uma leitura esquerdista do conquistador, inclui um olhar mais nuançado sobre o Império Asteca. "A Mesoamérica já era violenta e injusta muito antes da chegada espanhola", diz ele.
É verdade, mas o autor não leva em conta a questão da escala da violência, que explode durante a conquista.
Guardadas as proporções, seria como diminuir a responsabilidade dos europeus pela escravidão, uma vez que, afinal, havia escravos na África antes de os brancos terem aportado no continente.
De um modo geral, no entanto, o relato é bem conduzido e equilibrado, o que fica evidente na saudável desconfiança com que o autor trata as fontes primárias, quase todas eurocêntricas. 


OSCAR PILAGALLO é jornalista e autor de "A História do Brasil no Século 20" (Publifolha).

HERNÁN CORTEZ: CIVILIZADOR OU GENOCIDA?
AUTOR Marcus Vinícius de Morais
EDITORA Contexto
QUANTO R$ 37 (208 págs.)
AVALIAÇÃO bom