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Contrastante Rússia

Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

Um mundo gigantesco, repleto de gente, história e distinções, assim é a Rússia que Angelo Segrillo desbrava no lançamento 'Os Russos' (Contexto, 288 pág., preço médio R$ 47). O escritor participa de bate-papo, hoje, na Bienal Internacional do Livro, no espaço # Você + Quem = , às 15h. Se junta a ele na conversa o escritor norte-americano Thomas Kohnstamm.

Historiador com mestrado feito em Moscou, Segrillo viveu na pele importante momento da história russa. Ele foi para lá ainda na época da União Soviética. "Morei lá de 1989 a 1992. Quando cheguei era um país, quando saí, outro", diz ele.

Carioca afeito a um despretensioso papo, no livro ele conta que se assustou com o tipo russo, mais fechado a conversas. "Eles têm maneira diferente de fazer amizade. Pisei no metrô e queria falar com as pessoas, mas ninguém me dava bola. Lá é comum que você conheça alguém e ele te apresente ao grupo. Quando eles se tornam amigos, são extremamente confiáveis."

Mais do que guia sobre a história russa, a obra é um bom compêndio sobre os aspectos culturais que marcam as vastas terras do país. O que chama a atenção é o modo como um russo é denominado. Há o russo étnico, filho de pais russos, e aquele que é cidadão da Rússia mas tem a nacionalidade definida de acordo com a origem dos pais. "Esse sistema eterniza as diferenças. É como se fosse um país de nações diferentes."

Assim, aos poucos, ele vai desvelando essas disparidades, contando interessantes casos, como o hábito que alguns russos têm de cavar um buraco no lago congelado para nadar. Ou o de atrasar para algum encontro, costume brasileiro não tolerado por eles. "Sempre me atrasava uns 20 minutos pensando fazer uma boa ação para o anfitrião. Até o dia em que me chamaram a atenção espantados com meus atrasos", conta.

CULTURA RUSSA

Interessante é o capítulo em que ele destrincha a arte da Rússia e a maneira como ela retrata e influencia as pessoas de lá. Os escritores Tolstói e Dostoiévski ganham menção especial. "Esses autores, não à toa famosos no mundo inteiro, têm obra muito filosófica, que discute ideias". Algo que, para ele, reflete o que pode ser chamado de alma russa (russkaya dusha). "É o que eles chamam de espiritual, mas no sentido de cultura, do mundo interior, da mente, não da realidade material. Um ateu pode ser muito espiritual nesse sentido." Fato é, comprovado in loco, que os russos têm tendências ao mesmo tempo coletivistas e introspectivas. E um mundo a ser descoberto.

"Não sei se é pela imensidão, pelo frio, pela questão do sangue e das nacionalidades, mas ao mesmo tempo essa alma não é como ser só paulistana ou carioca. Lá você não pode ser isso, só voltado para dentro. O pensamento é mais universalista."