Editora Contexto

Assunto
(0) items

Publicado em 23/08/2015 às 12h11 

Fonte: Blog Cosme Rímoli

Cosme Rímoli entrevista Maurício Noriega sobre livro Rivellino

Rivellino, o maior camisa 10 do Corinthians e Fluminense. E um dos melhores jogadores de todos os tempos. Fundamental na maravilhosa Seleção de 70. Sua trajetória revelada no livro de Maurício Noriega…

 

 

Maurício Noriega é o comentarista mais veemente do Sportv. Forma uma dupla muito especial com Milton Leite. A química é excelente. As narrações divertidas, inteligentes se completam com observações táticas e técnicas que destrincham o jogo, os esquemas táticos.

Conheço Noriega há pelo menos vinte anos. Filho do brilhante jornalista Luiz Noriega, ele seguiu a carreira do pai. Sempre muito sério, determinado. Foi meu concorrente. Enquanto eu cobria Corinthians, Palmeiras e São Paulo pelo Jornal da Tarde, o encontrava pela Folha da Tarde, Diário de São Paulo.

A amigos próximos nunca escondeu que desejava se tornar comentarista na tevê. E seguiu seu rumo. É um dos melhores comentarista de futebol do país. Já está no Sportv há 13 anos. Ganhou o prêmio de melhor comentarista da Associação dos Cronistas de São Paulo por cinco vezes.

Mas a vontade de escrever não morreu. Pelo contrário. Já é autor de quarto livros. "Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro", "Kléber, o Gladiador", "Marques, o Messias." E na próxima sexta-feira, lançará Rivellino, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, aqui em São Paulo.

O personagem é muito interessante e pouco conhecido. Rivellino. Nome que desperta muitas sensações no corintiano. Orgulho, decepção, raiva. Ele foi um dos maiores jogadores que nasceram no Parque São Jorge. E símbolo da derrota em 1974, na decisão do Paulista contra o Palmeiras, que poderia terminar o jejum de 20 anos sem conquistas.

Na Seleção Brasileira, o meia canhoto foi sensacional. Um dos responsáveis pelo excepcional time campeão do mundo em 1970. Participou de 1974, quando houve um racha entre paulistas e cariocas, que Zagallo não soube domar. E também do time 'campeão moral' em 1978, na Argentina.

Conhecer Rivellino é desfrutar de um período em que o Brasil tinha mesmo o melhor futebol do mundo. As histórias se sucedem, cada uma mais interessante do que a outra. Como aquela que ainda ecoa nos corredores do Palestra Itália. A que o camisa 10, que Maradona considera seu ídolo, deveria ter sido jogador do Palmeiras...

Aqui, a exclusiva com Mauricio Noriega, muito empolgado, com razão, com seu "Rivellino"...

 

 

Qual a importância do Rivellino no futebol brasileiro?

O Riva é um dos maiores da história do nosso futebol. Ele influenciou gerações de jogadores com seu estilo, técnica, o chute. Até mesmo o bigode (rs). Um cara que é citado como o maior jogador do Corinthians, mesmo sem ter sido campeão, e foi escolhido o maior jogador do Fluminense, além de ter participado como protagonista da seleção de 70 é um dos pilares do nosso futebol, sem dúvida.

Por que ele é mais valorizado fora do país?

Não vejo desta forma. Acredito que ele seja muito valorizado no Brasil, mas nós não temos a cultura de reverenciar os grandes do passado como têm os europeus e também os argentinos e os uruguaios. O torcedor brasileiro é muito imediatista e só quer saber das vitórias do time dele. Em muitos casos abandona o time quando está perdendo. O culto ao Rivellino existe em todos os países do mundo em que o futebol é apreciado como uma arte. No Brasil ainda não atingimos esse patamar de reconhecimento, embora eu acredite que o Riva seja um dos jogadores mais reconhecidos do Brasil.

Como foi o confuso teste no Palmeiras? Por que ele não ficou no time do seu pai?

Cosme, vou dar uma prévia e espero que as pessoas conheçam a história toda lendo o livro.(rsrs). Riva estava arrebentando no futsal do Banespa e foi chamado para um teste no Palmeiras, que era o time da sua família (e dele também). Foi algumas vezes e não entendeu que teve atenção. Era o Mário Travaglini o treinador do infantil. Riva ficou chateado e terminou aceitando um convite de um diretor do Indiano que também era do Corinthians e foi parar no Timão. O Verdão ainda tentou recuperar o prejuízo, mas não conseguiu. Detalhes no livro.

 

 

Ele,sozinho, era capaz de levar torcedores para ver os jogos dos aspirantes do Corinthians?

Sim. Ele tinha uma fama grande já nessa época. Eram os tempos do Faz-me Rir, um dos piores times da história do Corinthians. O Rivellino se destacou no juvenil,foi para os aspirantes e foi campeão nessa categoria em 1964. A Fiel ia ver o time de aspirantes e muita gente ia embora antes do jogo principal.

Como era ser o grande ídolo em pleno auge do jejum de títulos? De 1954 a 1977.

No livro tentei capturar esse sentimento do Riva. A pressão era muito grande, o Corinthians só teve times fracos naquele período e a bomba sempre estourava nas costas do Rivellino, por ser o melhor e o mais famoso.

 

Você pode dar a sua visão de toda a participação do Rivellino na decisão de 1974?

Eu era muito pequeno naquele tempo mas já revi o jogo em teipe, inclusive com a narração do meu pai, Luiz Noriega. Rivellino fez um jogo bom, não foi excepcional, mas estava enfrentando um adversário muito superior e bem mais tranquilo. O time do Palmeiras era gelado, estava acostumado a ser campeão.

Como ele reage até hoje diante de torcedores que garantem que ele se intimidou naquela decisão?

Ele discorda, acha que fez um bom jogo e diz que o time do Palmeiras era muito melhor. Essa parte da história dele está destacada no livro.

O que você acredita que realmente houve? O Vicente Matheus repassou a culpa para o Rivellino?

Houve um movimento por parte do Matheus, de dirigentes do Corinthians, torcedores e parte da imprensa no sentido de apontar o Rivellino como culpado de uma tragédia anunciada e inevitável.

Na sua visão como comentarista, qual time era mais forte em 1974? Palmeiras ou Corinthians? Por quê?

Não dá para comparar. O time do Palmeiras era muito melhor, vinha do bicampeonato brasileiro, uma base, inclusive da seleção brasileira. Tinha Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha. O time do Corinthians era mais rápido, tinha o Vaguinho, o Rivellino, o Lance, o Adãozinho. Mas tecnicamente o time palmeirense era infinitamente superior.

Você também escreveu a biografia do Oswaldo Brandão. Qual foi o segredo para ganhar aquela decisão que parou o país? Como ele anulou o Rivellino? Ele mandou algum jogador o desestabilizar?

Brandão era espetacular, conhecia todos os truques. Ele sabia que o time do Palmeiras era mais cadenciado e fez de tudo para o segundo jogo ser no Morumbi, depois de empate por 1 a 1 no primeiro, no Pacaembu. Ele pediu ao Gino Orlando, administrador do Morumbi e amigo del, que molhasse bastante o campo, que tinha sido reformado semanas antes. Ficou pesado, tirou a velocidade do jogo, que era a arma do Corinthians. O Dudu, volante do Palmeiras, me contou na entrevista para o livro que quando enfrentava o Corinthians o Brandão pedia que o Luís Pereira jogasse praticamente como volante só para marcar o Rivellino, e ele ficava mais atrás. Sacadas simples e geniais. O Palmeiras tocou o jogo praticamente como quis.

 

O quanto foi decepcionante para o país e para o governo o Corinthians perder a decisão para o Palmeiras?

Não sei dizer se houve impacto para o País, mas certamente houve para o Corinthians, ao ponto de praticamente abrir mão de seu maior jogador e culpá-lo de um crime que ele não cometeu.

Dê detalhes da saída do Rivellino para o Fluminense... Ele queria ir para o Rio? Ou o Matheus não o queria em um rival?

Detalhes no livro.rsrs Mas o Riva considera que houve uma reportagem feita por um jornalista que se transformou em poderoso empresário anos depois, inclusive envolvido no escândalo de corrupção da Fifa,que foi determinante para sua saída. O livro traz os detalhes, nomes e inclusive um pedido de desculpas do envolvido. Basicamente o que houve depois da final do Paulista de 1974 foi que nenhum clube procurou o Rivellino, a não ser o Fluminense, através das sacadas brilhantes do Francisco Horta. E no Flu o Riva redescobriu a alegria e o prazer de jogar futebol. O livro traz essa história, o sentimento de mudança, a troca da pressão pela alegria. Ele foi muito feliz no Flu e foi campeão. Quem ler o livro verá que os valores da transação foram ridiculamente baixos.

Por que com tanto talento, clubes do Exterior não levaram Rivellino no auge?

Houve tentativas de grandes times europeus. Ainda quando ele estava no Corinthians, muito jovem, o Milan se interessou. Depois, já no Flu, o Real Madrid fez uma bela proposta, que o Horta recusou..

 

Por que ele foi parar no Al-Hilal?

Segundo palavras do próprio Riva, um príncipe maluco apareceu no Fluminense e fez a proposta, que foi boa para todos. Ele foi para o futebol saudita o que o Pelé foi para os Estados Unidos no Cosmos.

O dono do time queria mesmo a mulher do Rivellino?

No livro ele desmente essa história com veemência.

Ele tentou acertar um chute no príncipe?

Também desmente isso no livro.

Por que seu passe ficou travado no Al-Hilal?

O passe era do clube, que queria renovar o contrato, mas o Rivellino conta no livro que queria voltar ao Brasil e que o passe era do clube, segundo ele não ficou preso, nada disso, apenas não apareceram interessados.

Ele estava acertado para jogar no São Paulo mesmo?

Segundo a história que está no livro o Riva fez tratamento no São Paulo, participou de um treino e o Travaglini, que era o treinador, o consultou para saber se queria jogar. Mas o Riva já estava com 36 anos e não se entusiasmou, embora tenha jogado pelo São Paulo num amistoso contra a Arábia Saudita, coincidentemente.

O Corinthians o deixou de lado por muito tempo. Só recentemente vieram as homenagens. O que aconteceu? Ele ficou marcado por 1974?

Eu acho que o peso dos 21 anos e daquela final marcaram muitos torcedores e jornalistas da época, que foram transferindo isso para outras gerações. Eu conheço muitos corintianos que sempre idolatraram o Rivellino. Mas acredito que o torcedor brasileiro não tem muito respeito por ídolos que não dão sorte, jogadores que se destacam em épocas de vacas magras, mesmo sendo gênios como o Rivellino. Há casos do Roberto Dias, no São Paulo, que virou ídolo no tempo da fila tricolor. O Riva sempre gostou do Corinthians, mas o fato de ele ter sido vencedor no Fluminense talvez tenha incomodado alguns corintianos e alguns dirigentes. Felizmente acho que o Corinthians e o Riva se entenderam e ele tem sido muito homenageado recentemente.

 

 

O Rivellino queria ter jogado no Palmeiras?

No livro fica claro que não. Tampouco me parece que esse seja um drama para o Palmeiras e para o Rivellino.

O Rivellino entendeu que deveria mudar sua maneira de jogar para ser titular em 1970?

Ele percebeu que taticamente o Zagallo gostava de um meia que ajudasse a recompor a marcação. No livro conto a história do dia em que ele ganha a vaga no time titular, é uma história bem engraçada e, digamos, picante. Mas o Riva nunca abriu mão de suas características individuais para ganhar a vaga no time. Ele se impôs na base da categoria que tinha.

Qual a importância do Rivellino naquele time maravilhoso?

Na minha visão de comentarista, o Rivellino fez um encaixe preciso com jogadores como Tostão, Gérson, Clodoaldo, Pelé e Jairzinho. Ele era um jogador de toque, técnica, gostava de tabelar e chegar finalizando. Nisso tinha o Tostão como parceiro. Sabia abrir espaço, saía da área. O que era ótimo para o Pelé. Com o Gérson formou uma dupla espetacular de armadores, cada um ao seu estilo. Gérson mais recuado, com mais visão de jogo, e Rivellino mais próximo da área adversária, mais agressivo. Era um time fantástico.

Há algumas histórias de bastidores daquele Mundial?

Sim. Eu gosto da história do dia em que o Riva ganha a vaga no time antes de um amistoso contra a Áustria. O jogo foi 1 a 0, mas ele fez dois golaços.rsrs E tem coisas do ambiente, algumas inimizades contornadas também.

O Rivellino fala da militarização da Seleção?

Conta inclusive que recebia telefonemas diários de um general de altíssima patente. Detalhes no livro.rsrs

Como Zagallo domou o ego de Rivellino, Pelé, Gerson, Paulo César Caju?

Acho que os jogadores domaram seus egos porque sabiam que aquela era uma oportunidade única para muitos deles e tinham consciência de que contavam com uma geração de craques rara de se reunir.

Em 1974, o grupo estava mesmo rachado? Rivellino era o comandante dos paulistas e Caju dos cariocas?

Riva conta que havia esse racha, mas sem apontar lideranças. Támbém fala de mudanças feitas em cima da hora por Zagallo, que treinou um time e escalou outro para a estreia.

Como Rivellino, na reserva, contundido, acompanhou a Copa de 1978? Ele acha que o resultado foi manipulado para que a Argentina fosse campeã?

Tem essa desconfiança, sim, por parte dele. Mas ele também entende que a seleção brasileira não chegou tão forte para aquele Mundial, do qual ele foi praticamente um espectador.

Além de Maradona, há outros jogadores importantes no mundo que o reverenciam. O Pelé o considera um dos cinco melhores da história do futebol. Você acredita que a geração de craques que o Brasil teve na década de 70... e o fracasso na decisão do Paulista em 1974 macularam a imagem do Rivellino por aqui? Ele é um desconhecido dos torcedores?

Não, ele segue sendo muito conhecido e admirado. O livro tem depoimentos especiais de Pelé, Tostão, Zico, Platini, Beckenbauer, Neto, Alex, todos reverenciando o Rivellino como jogador. E acho que ele é um dos jogadores mais conhecidos de todos os tempos, ainda hoje. A figura dele, muito também pelo bigode, é emblemática. E o jeito de jogar é inesquecível, ele brincava de jogar bola.

E na sua opinião como comentarista, jornalista? Qual o patamar que o Rivellino ocupa no futebol mundial?

Seguramente está entre os maiores de todos os tempos. Entre os cinco ou dez maiores, sem dúvida. Foi gênio. Eu procurei escrever um perfil do jogador, tentei buscar razões que expliquem porque ele se tornou Rivellino e por quais motivos não aparecem mais jogadores como ele. Não se trata de uma biografia, mas de um perfil biográfico. Não me ative a detalhes como datas, muitos números, tentei contar de outro jeito a vida do garoto Roberto que virou Rivellino.

Por que os principais personagens do futebol brasileiro estavam longe dos livros?

Brasileiro lê pouco, infelizmente. Mas isso parece estar mudando na área do futebol e dos esportes, muitos lançamentos estão acontecendo. Tomara que apareçam muitos outros.

Qual a sua visão em relação ao fracasso da Seleção na Copa do Mundo?

É o fracasso do futebol brasileiro, de uma estrutura arrogante, viciada e que de desconectou completamente da realidade.

A Seleção estará pronta para um treinador estrangeiro algum dia? O que você pensa dessa questão?

Não vejo drama. Mas também não acho que seja a única saída. O Brasil tem bons treinadores, mas a seleção não tem projeto, a CBF não tem sistema de trabalho para a seleção, com diretrizes. Quer ganhar dinheiro com amistosos e jogar torneios oficiais. Não existe uma proposta de estratégia, de estilo. Cada treinador que entra faz o que bem entende e não deixa nada para o próximo.

Corrupção na Fifa, Marin preso, Edilson Pereira de Carvalho, CPI do Futebol. Você acredita que tudo isso faz com que o torcedor perca a ingenuidade, a fantasia? Isso é bom ou ruim para o futebol?

É péssimo. Mas é o retrato do País, mergulhado na lama, e o futebol faz parte. Mas acho que a magia do futebol sobreviverá a tudo isso.

Qual a diferença entre um comentarista de futebol vindo do jornalismo do ex-jogador? Eu acredito que se complementam. E você?

Acho que são visões e estilos diferentes que podem, sim, ser complementares. Um não anula o outro e não basta ser jornalista ou ex-jogador para ser bom comentarista. Tem jogador comentarista fraco e jogador comentarista excelente. Assim como jornalista fraco e excelente. Mas a dupla pode dar bom caldo, sim...