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Fonte: Poder Econômico

 

SÁBADO, 24 DE NOVEMBRO DE 2012Entrevista | 05:05 

Índia e Brasil, quem atrai mais investimentos?

 

Florência Costa: seis anos de Índia a tornou especialista na cultura do país (Foto: Divulgação)

Depois da onda chinesa, outro Bric, agora, entra no foco de negócios das empresas brasileiras: a Índia. São poucas, por enquanto, as transações comerciais com o país de Gandhi. Mas as coisas estão mudando. E rápido. O interesse do governo da Índia em abrir oportunidades para as multinacionais daqui faz com que as empresas procurem mais informações sobre uma das culturas mais herméticas do planeta. Depois de seis anos vivendo no país, a jornalista Florência Costa, primeira correspondente brasileira na Índia, retornou ao Brasil com uma grande ajuda aos executivos interessados no tema: o livro Os indianos (Editora Contexto), com lançamento oficial na terça-feira, 27, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, em São Paulo. “A empresas do Brasil têm boas chances na Índia, mas precisam apagar o esteriótipo”, diz Florência nesta entrevista ao Poder Econômico.

Poder Econômico – O mundo tem uma visão distorcida ou esteriotipada da Índia?

Florência Costa – A Índia é uma vítima dos esteriótipos. Não há uma visão balanceada do país. Há os que voltam de lá dizendo que o país é um oásis de espiritualidade, por causa de sua tradição de gurus e sadus (os homens santos hindus que abdicam de suas posses). Há os que voltam reclamando apenas da miséria, que é imensa de fato, com hordas de mendigos vagando pelas ruas. Mas a Índia é espiritual e material. É pobre, mas é riquíssima também, com sua imensa classe consumidora, que pode chegar até a 300 milhões de pessoas, mais do que um Brasil inteiro. O país é um dos mais complexos do mundo, com mais de 20 línguas, milhares de castas, várias religiões e etnias. Para explicá-lo, é preciso levar todas essas características em conta. E foi isso que eu procurei fazer no meu livro.

Poder Econômico – Depois de seis anos na Índia, como vê a capacidade do país em atrair investimento estrangeiro?
 

Florência Costa – A Índia vive nos últimos meses um momento crítico para o futuro de sua economia. Em setembro agora o governo tomou um passo decisivo, anunciando um pacote de reformas batizado pela mídia de “Big Bang”, devido ao seu alcance extraordinário, depois de 20 anos da primeira liberalização da economia. O futuro do crescimento econômico indiano depende da capacidade de o país avançar nessa sua segunda fase de reformas. Um dos principais objetivos dessa nova onda de abertura é atrair o investimento estrangeiro. Para isso, o governo reduziu as restrições para investimento estrangeiro em gestores de mídia e aviação civil. Nas próximas semanas, o Parlamento indiano vai pegar fogo, com o debate de algumas dessas medidas liberalizantes anunciadas no pacote, especialmente no que se refere à abertura para o capital estrangeiro no setor de Varejo (em negócios multimarcas), no mercado de Previdência e de Seguros. Eu acredito que essas medidas vão ser aprovadas no Parlamento porque o governo vem costurando os acordos com os adversários.

Poder Econômico – Como é a concorrência do país com o Brasil na questão de atração de investimentos?

Florência Costa – A Índia foi o país que menos recebeu investimentos dentro do Brics nesse ano, de acordo com o resultado do levantamento “Global Investment Trends Monitor”, divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Mas em compensação, está à frente do Brasil quanto aos destinos preferenciais dos executivos de companhias multinacionais para o período entre 2012 e 2014.

Poder Econômico – Quais seriam as vantagens e desvantagens para o Brasil ?

Florência Costa – Acredito que a cultura brasileira, sendo ocidental, facilita as coisas para os investidores. Mas os problemas e os desafios, me parecem, apesar de estar fora do Brasil há seis anos, são os mesmos. Infraestrutura em todos os aspectos, educação, pobreza, desigualdade social, corrupção, legislação. A favor da Índia tem o mercado e o viés mais liberal, que sempre é, obviamente, mais interessante para o investidor.

Poder Econômico – Acredita que a Índia caminha para resolver seus problemas de infraestrutura?

Florência Costa – Sim, eu acredito. Mas isso acontece em um passo de tartaruga quando deveria ser de lebre. Um dos maiores problemas da caótica infraestrutura indiana é a escassez de energia elétrica. Como eu explico no livro, várias cidades economicamente importantes tem apagões de muitas horas por dia. As famílias de classe média e todos os comerciantes e empresários são obrigados a gastar muito dinheiro com geradores de energia para poder tocar a vida e os negócios normalmente. A produção e a transmissão de energia são controladas pelo governo. Somente em Delhi (capital) e em Mumbai, o coração financeiro da Índia, e em algumas pequenas cidades, a distribuição é feita por empresas privadas. Outros gargalos de infraestrutura na Índia são as condições ruins das estradas, dos portos, e a baixa qualificação da mão-de-obra. A Índia produz 3 milhões de graduados por ano e 350 mil pós-graduados. Mas há muitas fábricas de diplomas. Por isso, cerca de 75% dos formandos saem despreparados e não estão aptos a entrar no mercado de trabalho.

Poder Econômico - O que diria para um empresário que quer fazer negócios lá? Quais são os riscos e, por outro lado, as oportunidades?

Florência Costa - Eu acho que as oportunidades são tão gigantescas quanto o tamanho da população indiana, de 1 bilhão e 2 milhões de pessoas. Há um imenso mercado consumidor para produtos agrícolas, por exemplo, também frango, soja, açucar, petroleo, veículos como ônibus, e por aí vai. Quanto aos riscos, a Índia é um país seguro para investimentos. Mas há obstáculos. Talvez o principal deles seja o fato de o país amargar uma forte tradição burocrática, que cria empecilhos para abrir e fechar negócios. Há muitos atrasos por conta disso. Ou seja, as empresas do Brasil têm boas chances na Índia, mas precisam apagar o esteriótipo.

Poder Econômico - A corrupção tem sido um entrave para o desenvolvimento econômico no Brics, na China, no Brasil e na Rússia. Ocorre o mesmo na Índia?

Florência Costa – Com certeza. Um dos debates que mais pega fogo na Nova Índia é sobre o aumento exponencial dos casos de corrupção em todas as áreas da economia. Há manchetes frequentes sobre a necessidade de o governo repatriar a montanha de dinheiro sujo escondida no exterior. A partir de 2010, a Índia mergulhou em ondas sucessivas de escândalos que paralisaram o governo e congelaram importantes projetos de desenvolvimento de infraestrutura e derrubaram investimentos. Isso tudo desencadeou em 2011 um imenso movimento popular contra a corrupção com muitas manifestações de rua.

Autor: Jorge FélixTags: