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Os Indianos - Jornal O Globo

Por trás do enigma indiano - Jornal O Globo - 24/11/2012

A jornalista Florência Costa, correspondente do GLOBO na Índia entre 2006 e 2012, lança livro em que desconstrói estereótipos sobre o país

Indianos utilizam a mesma palavra para designar o passado e o presente: kal, em hindi. O curioso termo funciona como uma chave para compreender a coexistência de diferentes tradições e culturas dentro do país, do tamanho da região norte do Brasil, mas com uma população seis vezes maior do que a brasileira. Na nova Índia, nascida a partir das reformas da década de 1990, as contradições entre o moderno e o arcaico ficam ainda mais realçadas. Os dalits, considerados intocáveis pelo sistema de castas, tornaram-se empresários de sucesso, mas continuam vítimas de preconceito e podem ter dificuldade de conseguir se casar. 

Com cinco mil anos de história, a Índia é complexa e, desde sempre, intrigou e fascinou o Ocidente. Foi com a missão de desmontar os estereótipos sobre esse gigante e expôr as suas contradições que a jornalista Florência Costa, correspondente do GLOBO no país entre 2006 e 2012, escreveu o livro “Os indianos” (Editora Contexto). Neste período, Florência passou os primeiros 18 meses em Mumbai e depois se mudou para Nova Délhi. 

O livro está organizado em doze seções que abrangem vários assuntos como as castas, as religiões, a relação com a sexualidade, a cultura, a história e a economia. Florência mistura pesquisa bibliográfica, conversas na ruas e entrevistas com especialistas. Em dois anos, a jornalista devorou mais de cem livros para tentar entender a complexa teia que caracteriza a Índia e afirma que se encantou ainda mais. 

— É muito difícil ser indiferente à Índia. Todo mundo têm alguma reação muito forte, seja de fascínio pelo mistério de uma sociedade interessantíssima ou o repúdio pelos seus males, como a opressão à mulher. Depois que comecei a pesquisar, passei a admirar muito mais o país, comecei a entender o porquê das coisas. Um ano de Índia é equivalente a dois ou três meses de Brasil — diz Florência. 

A vida de um estrangeiro no país não é propriamente fácil. De uma mulher estrangeira, então, pode ser ainda mais complicada. A sociedade indiana é fortemente patriarcal. Ninguém esconde a preferência por filhos homens e até rezas são feitas depois que a mulher fica grávida para que dê a luz a um menino. O resultado dessa preferência é que a Índia registrou, entre 2001 e 2007, segundo dados da ONU, 600 mil abortos de fetos femininos. E a mortalidade infantil das meninas é 75% maior do que entre garotos. 

Ao mesmo tempo, o cargo de presidente do Partido do Congresso (a principal força política) é ocupado por uma mulher, Sonia Gandhi. No comando de um dos maiores bancos do país, o HSBC da Índia, está a executiva-chefe Naina Lal Kadwai. Mais um exemplo das contradições que marcam a Índia, um lugar que parece coabitar tempos diferentes. 

— O presente e o passado andam abraçados na cabeça deles. É perceptível isso em todos os momentos. Lá, você vive em vários séculos ao mesmo tempo. Embora o preconceito seja proibido, a divisão de castas ainda permanece. Os dalits, por exemplo, podem ascender socialmente, mas se quiserem casar com mulheres de castas mais altas, podem encontrar problemas ou não. Depende do conservadorismo da família — conta a jornalista. 

Para ela, esses choques formam a chamada Nova Índia, que caminha a passos largos para se tornar uma potência mundial, ajudada também por um fator demográfico: há 600 milhões de indianos com menos de 25 anos. Ao contrário da China, que assiste ao envelhecimento da população, no país uma enorme leva de novos trabalhadores chegará ao mercado cada vez mais ávidos por bens de consumo. O consumismo, aliás, é uma das marcas desse momento econômico. 

Contudo, no meio do caminho há o jugaad, que poderia ser entendido como o “jeitinho” indiano. A flexibilidade para lidar com problemas e desafios ora é tratada nos meios de comunicação e nas universidades como o diferencial criativo do país, ora é visto como o pai de todos os males. Florência reconhece que a discussão é muito parecida com a que ocorre no Brasil, sobre o nosso “jeitinho”. Tanto aqui como lá, não conhecer os códigos do jugaad pode render uma grande dor de cabeça, especialmente na hora de resolver problemas com serviços. 

Segundo Florência, que se mudou de volta para São Paulo com o marido indiano, é possível desenhar um paralelo entre os dois países: 

— Ambos são emergentes, vivem problemas e desafios semelhantes, embora a pobreza na Índia seja incomparável. O jugaad é o nosso jeitinho brasileiro, a discussão é a mesma, há livros de antropólogos sobre o assunto. É só mudar a língua porque o debate é o mesmo. Os dois países compartilham desafios como acabar com a pobreza, aprimorar o crescimento econômico, se inserir internacionalmente.