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Um livro para mudar a alfabetização no Brasil

Leia a seguir a resenha do professor e pesquisador Antônio Gomes Batista* sobre obra publicada pelo site Plataforma do Letramento



Nos últimos quinze anos, aproximadamente, Magda Soares dividiu seu tempo entre duas tarefas aparentemente de difícil conciliação. Por um lado, após sua aposentadoria da UFMG − e mesmo tendo recebido o título de Professora Emérita, o que lhe permitiria continuar a exercer suas atividades na Universidade (com exceção das administrativas e deliberativas) − passou a atuar diretamente na Educação Básica, como uma espécie de "supervisora escolar", em seu sentido pleno, e sempre sob o regime de voluntariado. Primeiramente, numa creche no conglomerado da Serra, uma das regiões de mais alta vulnerabilidade social de Belo Horizonte; depois, no município de Lagoa Santa, pertencente à região metropolitana da capital mineira, fortemente afetada pelo crescimento da região.

 

Em Lagoa Santa, sua atuação se expandiu: criou o projeto Alfaletrar, de natureza sistêmica. Sua base é a formação dos professores que atuam com o ensino-aprendizado da alfabetização e da Língua Portuguesa de toda a rede de ensino municipal, da Educação Infantil aos anos iniciais do Ensino Fundamental (até o momento). Mas essa formação se realiza em serviço, por um núcleo de formadores composto de outros professores, que, em suas escolas, atuam como "supervisores" ou "coordenadores" − na verdade, como formadores dos demais docentes. E essa formação é orientada para os processos que organizam o ensino-aprendizagem da leitura e da escrita e para os fundamentos que os sustentam: do currículo da rede, passando pelos instrumentos de acompanhamento do ensino e da aprendizagem, de prevenção do fracasso, de recuperação e da avaliação (dos alunos, das turmas, das escolas, da rede como um todo), até os princípios que − dados os problemas detectados, os fundamentos assumidos e as metas curriculares − devem orientar o planejamento das escolas e a elaboração de atividades didáticas.

 

A segunda tarefa a que se propôs Magda − essa mulher que, identificada com Clarice Lispector, se vê sempre "incumbida" − foi a de refletir sobre os problemas e as dificuldades encontrados em sua prática − tão comuns aos de outros educadores brasileiros − e de buscar na literatura nacional e, sobretudo, internacional meios para compreender esses problemas e essas dificuldades, e também instrumentos para responder a seus desafios. Para isso, ela passou a analisar, nesses últimos 15 anos, toda a produção científica significativa − e com claros critérios para definir o que é "significativo" − que explodiu desde as últimas polêmicas originadas da mais recente “Guerra dos Métodos”, surgida com o National Reading Panel (2000), cujas conclusões foram interpretadas, por não especialistas brasileiros, como inquestionáveis, "científicas" − e, portanto, "verdadeira" e "derradeira" pá de cal em qualquer discussão.

 

O resultado desse grande e rigoroso esforço de pesquisa − sempre confrontado com a prática pedagógica − mostra o quanto essa interpretação não resulta senão de um discurso autoritário. Magda, entre outras conclusões, mostra que, como conclui o National Reading Panel, a análise sistemática das relações entre letras e sons é uma condição fundamental para a alfabetização. Mostra também, ainda de acordo com o relatório, a importância do desenvolvimento da consciência fonológica; mas evidencia também o quanto a estrutura fonética e natureza da ortografia utilizada por diferentes países é um poderoso elemento que condiciona a abordagem sistemática dessas relações letras-sons e que métodos fônicos de natureza sintética (aqueles em que os aprendizes primeiro procuram − tarefa quase impossível no caso do português brasileiro − articular os sons isoladamente para, depois, encontrar seu correspondente gráfico) são prejudiciais ao processo de alfabetização de falantes do português. Evidencia ainda que são processos analíticos, em que se parte da palavra para chegar à análise dessas relações entre letras e sons, os mais condizentes com nossa língua e ortografia.

 

A conclusão que podemos tirar é que só uma leitura malfeita, desinformada ou com falta de estofo linguístico poderia defender a primeira abordagem, promovendo autos de fé e exigindo que se abjurassem, como na última década, perspectivas científico-pedagógicas que estariam baseadas em supostas "crenças" organizadas em torno de grupos de "pedagogas histéricas", dirigidas por sacerdotisas argentinas. Mas que não haja dúvidas: na equilibrada análise de Magda, a inexistência de sistematicidade, o excessivo privilégio atribuído a textos em momentos de análise das relações entre letra e som, certo espontaneísmo, a desconsideração da complexidade dos textos, comuns em distintas perspectivas que vêm orientando aalfabetização no país, não passam incólumes.

 

O livro, resultado de um grande esforço intelectual, é fundamental para dar um novo rumo à alfabetização no Brasil. Põe ordem na discussão sem desconsiderar a complexidade do tema. Não se esperem soluções simplistas e simplificadoras. Ele mexe com crenças e interesses arraigados de grupos de diferentes origens: universitários, econômicos, editoriais, governamentais, da sociedade civil organizada. Mas Magda construiu uma liberdade que lhe é própria e uma autoridade baseada em sua história de defesa da escola pública que a livra da censura dos interesses pequenos e das alianças corporativas.

 

Em meio a essa crise que vivemos, somos um país feliz por termos uma Magda. Uma educadora-pesquisadora como Magda Becker Soares.